Contadora Azenate Xavier alerta que o foco do Fisco mudou para a qualidade dos dados; inconsistências na fase de teste podem gerar alertas automático
A Reforma Tributária deixou de ser uma projeção para se tornar rotina nos sistemas fiscais brasileiros. Neste início de 2026, empresas enquadradas no Lucro Presumido e Lucro Real já convivem com a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) em suas notas fiscais. O movimento marca o início da "Apuração Assistida", na qual a Receita Federal passa a monitorar cada transação em tempo real.
Embora as alíquotas atuais sejam simbólicas (0,1% para IBS e 0,9% para CBS), o objetivo é validar o cruzamento de dados. Para a contadora e especialista em planejamento tributário Azenate Xavier, o momento exige cautela extrema. “O risco não está no valor a pagar agora, mas na qualidade da informação. O sistema fiscal está sendo preparado para enxergar toda a cadeia de operações de forma instantânea”, explica.
No novo modelo, muda também a lógica de aproveitamento de créditos tributários. Hoje, o crédito é gerado pela simples emissão da nota fiscal. Com a reforma, isso deixa de existir. O crédito passa a estar condicionado à extinção do tributo, ou seja, só poderá ser aproveitado quando houver o efetivo pagamento do imposto ou alguma outra forma legal de extinção, como a compensação. “Estamos falando de um crédito financeiro, não mais documental. A emissão da nota, sozinha, não garante o crédito”, ressalta Azenate.
Essa mudança traz impacto direto no fluxo de caixa das empresas, especialmente daquelas que hoje se organizam considerando o crédito imediato gerado pela nota fiscal. “O cenário mudou completamente. Se o tributo não for pago, o crédito não se consolida”, afirma a contadora. Além disso, a inadimplência, seja do fornecedor ou da própria empresa, pode resultar em perda de competitividade e até de contratos, já que falhas na cadeia comprometem o direito ao crédito.
No modelo anterior, o empresário se preocupava quase exclusivamente com o percentual do imposto. Agora, a atenção se volta para a correta geração e manutenção dos créditos. “Se uma empresa compra um insumo e a nota fiscal está classificada de forma incorreta, ela simplesmente perde o direito ao crédito de CBS e IBS. Isso afeta diretamente o resultado financeiro”, alerta Azenate.
Diante desse cenário, a especialista recomenda que as empresas não esperem o fim do período de transição para se adaptar. Entre os principais pontos de atenção estão:
* Cadastro de produtos: códigos NCM e descrições devem estar corretos para evitar inconsistências com os sistemas de inteligência artificial do Fisco;
* Integração entre setores: financeiro e comercial precisam compreender que a emissão da nota fiscal passou a ser uma decisão estratégica;
* Sistemas de gestão (ERP): é fundamental verificar se a automação está preparada para destacar corretamente os novos tributos.
A mudança representa uma transformação profunda na relação entre contribuinte e Estado. O controle passa a ser preventivo, e não apenas punitivo. “Quem espera a cobrança oficial para se organizar tende a enfrentar retrabalho, perda de crédito e autuações que poderiam ser evitadas agora. A reforma já começou, mesmo que muitos ainda não tenham percebido”, conclui Azenate Xavier.
Sobre Azenate Xavier
Azenate Xavier é contadora, especialista em planejamento tributário e empresária contábil, e há mais de 15 anos comanda a Azenate Soluções Contábeis, escritório localizado em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife. É pós-graduada em Contabilidade para Negócios Empresariais pela UFPE e possui MBA em Gestão Financeira, Contábil e Controladoria.

